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Conheça a história da Paola da Reciclaria – Ribeirão Preto/SP

Por trás de uma pilha de jornais e revistas, caixas de fita de cetim e galões e recipientes de tinta que são a matéria prima para as criações da Reciclaria tem eu, Paola, mentora intelectual e que também põe a mão nesse amontoado de coisas.

Artesanato está presente em minha vida desde sempre. Quando eu era bem pequena minha mãe já fazia parte de uma cooperativa de artesãos em Foz do Iguaçu (PR), onde cresci (nasci em Santos, mas morei em 8 cidades, então a pergunta ‘de onde você é?’ nunca teve resposta simples). Lá, trabalhavam com cerâmica, tricô, crochê, bordado, madeira e comidinhas (isso é o que me lembro) e muitas vezes as mães nos levavam para brincar com argila enquanto trabalhavam – o que era ótimo para todas as partes (imagina criança que tem o cotidiano no meio de barro e tinta à vontade! Melhor impossível!).

De fato, as manualidades estão no DNA, pois tenho 2 avós bastante talentosas nos trabalhos artesanais: bordam, pintam, costuram, fazem tricô e crochê e o que mais tiverem interesse. E saiu uma mãe igual que, além da cerâmica, já trabalhou com tricô manual e a máquina, pintura e teve confecção (da qual herdo materiais auxiliares para a produção das peças da Reciclaria sempre que necessário). Daí que desde criança este mundo faz parte do meu e encaminhou meu interesse para artes de maneira mais pragmática e utilitária: virei arquiteta e urbanista, especialmente interessada e atuante nas questões urbanas, porém sempre amante da produção de objetos e como seu desenho – além de colaborar com a atividade para a qual foram pensados – pode trazer graça a atividades cotidianas e à vida dos usuários (assim como edifícios e cidades deveriam ser…).

Outro aspecto importante, o mais relevante, penso, da produção da Reciclaria, reciclagem e reaproveitamento, também vem de vivência, já que morava no PR quando foi implantada a coleta seletiva e houve toda a campanha para diferenciação do que é possível aproveitar para evitar a sobrecarga de lixões e afins. Por sorte, quando mudamos para Ribeirão Preto/SP também existia, de modo bem incipiente e intermitente até hoje, a coleta e o hábito simples de separar embalagens para reuso foi definitivamente incorporado, assim como a consciência para perceber se é realmente necessário usar determinado recurso (energia, papel, água…).

Imagino que o Seminário de Ecodesign oferecido no mestrado em Arquitetura Biodigital (em Barcelona) foi o que realmente me despertou para a atual condição: lá aprendi de fato quais procedimentos devem ser realizados para a produção sustentável em qualquer escala, além de outros valores a serem respeitados, como a responsabilidade social e remuneração justa. Sem contar o laboratório vivo que é – especialmente para uma amante de novidade – experimentar um ambiente multicultural, livre e inspirador.

Assim, depois de outro mestrado e alguns anos lecionando em universidade, a vontade latente de trabalhar unindo reciclagem, design e moda e o incentivo de amigos dessas áreas para fazê-lo, decidi investir no mundo craft: primeiro, definindo o que fazer (basicamente material, técnica e linha básica de produtos) e depois buscando informação para empreendedores iniciantes (curso no Sebrae e dicas valiosíssimas em publicações e vários blogs) para dar todos os passos com alguma segurança e ter uma visão que não faz totalmente parte de minha vivência (embora o trabalho com planejamento colabore em pontos cruciais da vida crafter).

Comecei desenvolvendo lembrancinhas de maternidade em quilling de jornal para uma amiga queridíssima e uma prima e fiquei surpresa (e feliz com o acerto intuitivo) ao ver numa publicação especializada que produtos reciclados são cada vez mais procurados pelos futuros pais nesse momento, pois vem uma vida da qual terão que cuidar num mundo escasso em recursos. E particularmente acho bastante prazeroso este trabalho conjunto com o cliente: se a graça do trabalho manual é justamente a originalidade, ver sua idéia concretizada provoca as melhores reações.

Seguiu então uma linha de acessórios (chaveiros, colares, tictacs) e utilitários para casa (conjuntos para mesa, bem apreciados como presente de casamento para uso diário), a tomada de decisões sobre combinação de materiais para que o produto resulte elegante (mas sempre com um toque de alegria), longas pesquisas diárias para evitar as ideias brilhantes que alguém já teve (uma “forma básica” é utilizada pelos que trabalham numa técnica, mas alguns toques pessoais – ou uso inusitado – contam a favor da originalidade). E olha que comigo já aconteceu mais de uma vez desenvolver um produto muito legal, ver que já existia e abandonar a criação… Ainda as pesquisas re
ndem muita inspiração e o conhecimento de novas técnicas para enriquecer a produção – assim como reavaliação do planejamento inicial e sua prática, uma constante em meu trabalho.

Nos primeiros trabalhos veio também a elaboração (em aperfeiçoamento diário) do método para facilitar a produção das peças (sou muito minuciosa e metodologia ajuda a ter bom resultado sem sofrimento), pois cada objeto surge da montagem de pecinhas que envolvem decisão (e testes) sobre dimensão do canudo (para dar maior resistência ao produto final – é mais trabalhoso, mas o resultado compensa) e do quilling final, pontos de contato, pintura (várias etapas para bom acabamento: muitos acreditam que a peça é de feltro!) e a adição de outro material – uso miçangas, fitas de cetim e galões do “arquivo” de minha mãe e penso em mesclar tecidos da mesma origem, assim como tecido feito com a condensação de sacolinhas de supermercado (que dá um resultado interessante) e já produzi a primeira leva de bolinhas e contas de jornal para fazer companhia à técnica básica.

O tema dos materiais interessa especialmente: em geral, uso o necessário para dar equilíbrio à peça, evitando excessos. Igualmente busco tirar partido das propriedades de cada material, por exemplo, se as revistas são naturalmente coloridas e o resultado desta característica é interessante, não cubro as peças de tinta e o faço com o jornal, que aceita melhor o acabamento. A tinta utilizada é de baixa toxicidade e faço as cores (adoro!) usando pigmentos da época da cooperativa, mas busco alternativas naturais e duráveis para quando o estoque acabar… Pode parecer uma chatice isso, mas é preciso lembrar sempre do curso e dos valores agregados à produção diferenciada pela qual optei.

Atualmente cuido da divulgação do trabalho, tanto produtos como ideologia, pois a aceitação não é fácil pelo grande preconceito com o material: até saberem que as peças são de papel vai tudo bem, mas é preciso convencer que são objetos duráveis (outro princípio de ecodesign), além de peças únicas pela produção artesanal. E preparo (reciclando mobiliário!) a mudança de espaço para breve: terei meu ateliê-escritório (até agora é em casa, com 2 espaços de trabalho e alguns de estocagem espalhados – e no meio virtual), de onde sairão mais novidades (num espaço de trabalho fica mais ágil o processo da produção e criação) e será possível conhecer pessoalmente criador e criatura.


Finalizando (ufa!), agradeço à Mônica pelo convite sempre simpático a expor os bastidores do nosso trabalho, atitude muito importante no nosso meio e que sempre traz novos ares para quem lida com criação.

Para conhecer mais o trabalho da Paola, visite a Reciclaria no Elo7 clicando aqui!
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